segunda-feira, 10 de setembro de 2007

as confinção de buscetta

As confissões de Tommaso Buscetta

Pino Arlacchi

Editora Ática – http://www.atica.com.br

A história recente italiana teve alguns aspectos emblemáticos de interesse universal. Todos ouviram falar da luta à corrupção generalizada, dos juizes da operação Mãos Limpas, dos juízes- mártires do pool anti-máfia, do fenômeno dos "pentiti" (arrependidos ou colaboradores da justiça) que permitiram iluminar finalmente mistérios de crimes que pareciam insolúveis. No livro "ADEUS À MÁFIA" - As Confissões de Tommaso Buscetta", de Pino Arlacchi (Editora Ática), juntam-se duas personagens fundamentais, Buscetta, o primeiro "pentito", e o sociólogo e ex-senador Pino Arlacchi, um dos maiores especialistas internacionais em criminalidade organizada, desde setembro passado vice-secretário geral da O.N.U., com a missão extraordinária de lutar contra o crime transnacional, o narcotráfico, o terrorismo e a lavagem de dinheiro. Eles representam as forças que talvez, pela primeira vez no mundo, estejam colocando em cheque o crime organizado. O livro é um relato em forma autobiográfica, resultado de entrevistas feitas pelo autor com Buscetta e do estudo dos testemunhos dele perante as autoridades judiciais. Cheio de detalhes, é escrito em primeira pessoa, unicamente - explica o próprio autor - como forma de tornar mais viva e imediata a narração. Não é uma obra maniqueísta, o bem contra o mal, mas é uma cortina que se abre num mundo que todos sentem existir, sem poder entender. Numa viagem extraordinária pelos meandros da Cosa Nostra - Máfia Siciliana - e suas ramificações internacionais, Tommaso Buscetta, o primeiro mafioso pentito, conta sua peculiar aventura humana neste mundo ultra secreto, que pareceria ficção se não fosse, infelizmente e comprovadamente, bem real. Ele descreve minuciosamente a trajetória que o conduziu à maior organização criminosa do mundo, como se tornou um dos seus principais líderes e porque resolveu denunciá-la. Regida pela lei do silêncio, a Máfia sofreu um forte abalo quando Tommaso Buscetta, integrante de sua cúpula, decidiu em 1994, após ter sido deportado do Brasil, onde estava foragido, colaborar com a justiça italiana, na pessoa do juiz Giovanni Falcone.

Um homem complexo, interessante e (seria correto afirmar isto ?) até simpático, surge das páginas de ADEUS À MÁFIA". Trata-se da exposição das idéias, das experiências e dos fatos relevantes na vida de um dos maiores mafiosos atuais. Tommaso Buscetta não se considera um "pentito" porque na verdade não está nem um pouco arrependido. Talvez sua única grandeza esteja exatamente nisso. A arrogância de suas convicções de verdadeiro uomo d’onore , como se apelidam os mafiosos da Cosa Nostra, no seio da Máfia antes e perseguido por ela após sua delação e colaboração com a justiça italiana. Diz ele:

- Eu falei e continuarei falando... não porque esteja "pentito", essa é uma palavra que sempre me incomodou e que ainda hoje me dá raiva... De que teria de me arrepender ?
Reneguei, desconheci uma instituição na qual eu acreditava e que servi com lealdade e sem interesse próprio... Não me arrependi de nada. O arrependimento implica em pedido de perdão. Não pedi perdão a ninguém... Sou um homem velho e atormentado... Dei-me conta do ponto a que chegou a Máfia e por isso decidi ajudar a justiça a derrubá-la... Mudei minha mentalidade em várias coisas, mas minha personalidade é a mesma... Não acredito que fiz tudo errado. Acho que muitas atitudes e idéias de Cosa Nostra, nas quais eu acreditava são ainda válidas, validíssimas.

Em poucas palavras, neste livro, Tommaso Buscetta reafirmou uma grande verdade: uma vez mafioso, sempre mafioso. O que o moveu a falar foi a necessidade de vendetta - vingança, contra seus antigos amigos e companheiros que o haviam traído. As guerras entre as famílias mafiosas estavam se tornando cada vez mais cruéis e sangrentas, com o advento do tráfico de drogas, enormes ganhos e ligações políticas. Buscetta resolveu ser mais inteligente que seus inimigos e quebrar, pela primeira vez na história da Cosa Nostra, a lei do silêncio - omertá, tentando destruir de forma mais refinada a nova Máfia que tinha tomado o lugar da antiga, e sua constituição hierárquica.

- Se me acho mais inteligente que meus inimigos é porque também sei controlar meus impulsos ferinos... Em vez de isso, resolvi colaborar com as autoridades. De assassino em potencial, transformei-me em acusador, em testemunha de acontecimentos trágicos... as pessoas que poderia matar com minhas próprias mãos foram punidas pela Lei escrita.

Nascido em Palermo em 1928, caçula de 17 filhos, cresceu na atmosfera romântica e severa da velha Máfia. A infância numa família honesta, os contatos iniciais com o crime enquanto ainda menino, a percepção do poder mafioso que não representava somente o dinheiro, seus primeiros passos como traficante, os assassinatos. As viagens constantes, a vida na Argentinas, México, Canadá, Estados Unidos. Os dois períodos felizes vividos no Brasil. Muitas amantes, desafiando com isto a ética mafiosa. Três casamentos, sendo que o primeiro e o segundo, se constituíram numa bigamia. Por fim o terceiro e último, desta vez regularizado e por sinal com uma brasileira, Cristina, até hoje com ele. O amor pela família, pelos filhos (dois destes mortos pela Máfia juntamente com um irmão e muitos outros parentes). A dor. A busca constante de liberdade e dignidade. A fé em Deus.

Um livro ambíguo, um documento antropológico e humano importantíssimo. Um homem que passa da honra à desonra, da verdade à mentira com uma dualidade desconcertante. Como traduzir a linguagem coloquial cheia de modismos e vernáculos de uma língua para outra ? Nisto reside o talento do tradutor, plenamente conseguido nesta obra de outra forma complicada. Para facilitar ainda mais a compreensão do texto, há oportunas notas de rodapé explicando fatos e palavras.

Cabe ao leitor extrair deste verdadeiro registro lingüístico e comunicativo de um uomo d ‘onore, suas próprias conclusões. Além de empreender uma caminhada complexa pelos mecanismos secretos dos crimes de maior repercussão da história recente, o leitor estará se embrenhando numa forma de ser e pensar que alcança raízes antigas, praticamente medievais e passa ao mundo moderno pelo qual o protagonista (e talvez não somente ele) se demonstra despreparado. A solidão ontológica do homem, o caos do mundo contemporâneo em sua mudança exponencial, não são somente prerrogativas que alteram e perturbam sociedades arcaicas como a Cosa Nostra italiana com seus dinossauros ainda bem vivos, mas uma constante nos agrupamentos humanos que se acotovelam desde sempre em todos os países e sociedades, inclusive no Brasil, até os nossos dias.

Preso no Brasil em 1984, Tommaso Buscetta vive hoje nos Estados Unidos, escondido e protegido pelo F.B.I. Ele continua sendo o homem mais procurado pelas poderosas famílias mafiosas, pois alguns de seus chefes foram capturados em função de suas revelações. Revelações que fizeram luz inclusive sobre atentados e assassinatos ainda obscuros, como a morte de Enrico Mattei, presidente da E.N.I., no famoso "acidente" de avião de outubro de 1962 que simplesmente mudou a história da Itália e que, sabe-se hoje graças a Buscetta, foi encomendada pelas companhias petrolíferas e Máfia americanas à Máfia siciliana. Como a morte do político Aldo Moro, do General Dalla Chiesa, de jornalistas, agentes, religiosos, juizes, como Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, famílias inteiras, gente inocente numa carnificina cada vez mais terrível e ligada ao mundo do dinheiro, poder e corrupção política.

A guerra entre crime organizado e justiça continua. Daí a importância humana e histórica desse livro. O depoimento de Buscetta traz a público pela primeira vez a estrutura e funcionamento da criminalidade organizada, sua brutalidade, suas motivações. Motivações e panorama não muito diferentes aliás dos que regem o complexo paraíso humano-desumano no qual vivemos.

Foi a Máfia-empresa que prevaleceu sobre a Máfia-ordenação jurídica e seus códigos de honra ? Foi o espírito do capitalismo selvagem e seus demônios de poder e riqueza que se impôs à ética mafiosa como em muitos outros campos ? Uma reflexão profunda se impõe. A discussão está aberta.

Ficha técnica: Pino Arlacchi nasceu na Itália em 1951. Considerado um dos maiores especialistas internacionais em criminalidade organizada, foi eleito senador do Parlamento Italiano em 1955. Em 1997, tornou-se vice-secretário da Organização das Nações Unidas com a missão extraordinária de lutar contra o crime, o narcotráfico e o terrorismo. Entre seus livros mais conhecidos estão La mafia imprenditrice, La palude e la città, Si può sconff igere la mafia, Gli uomini del disonore, Imprenditorialità illecita e droga e Il processo. O professor Arlacchi era amigo e colaborador dos juízes Falcone e Borsellino, mártires e símbolos da luta contra as máfias. O livro "Adeus à Máfia" é dedicado a eles. Pino Arlacchi é membro do Instituto Italiano Giovanni Falcone. Este Instituto existe no Brasil com o nome IBGF (Instituto Brasileiro Giovanni Falcone). A Editora Ática publicou este livro com o apoio incondicional do IBGF. Este Instituto dedica-se à formação de uma cultura de defesa da sociedade brasileira contra a penetração do crime organizado. O presidente do IBGF e grande amigo de Pino Arlacchi é o Walter Fanganiello Maierovitch, Juiz do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo.

Giuliana Giudici.

ITÁLIA anti mafia

Brasília, sexta-feira,
06 de outubro de 2006

Matérias
ITÁLIA
Cidade quer ser símbolo anti-máfia

AFP
Um filme contra a máfia teve sua pré-estréia na última segunda-feira em Corleone, bastião histórico da Cosa Nostra. O simbolismo da apresentação se junta às recentes manifestações destinadas a romper a imagem mafiosa desta pequena cidade siciliana, mostrando sua determinação em combater o crime organizado.
A projeção de Placido Rizzotto, filme do diretor siciliano Pasquale Scimeca que narra a história verídica de um sindicalista assassinado pela máfia em 1948, reuniu no sábado à noite umas 200 pessoas na grande sala de cinema de Corleone. Familiares do sindicalista, representantes das autoridades locais e a Comissão Antimáfia assistiram ao filme.
‘‘Em 1992, antes da prisão de Totó Riina (chefe da máfia capturado em janeiro de 1993) um ato deste tipo seria inimaginável’’, declarou à imprensa o prefeito de Corleone, Giuseppe Cipriani. ‘‘Até mesmo em 1995’’, acrescentou. Nesta época, Leoluca Bagarella não estava preso. ‘‘E este era um homem sanguinário, que matava por qualquer coisa’’, afirmou Cipriani.
A história de Placido Rizzotto, na qual estão figuras históricas da máfia e da luta contra ela, como o capo Luciano Liggio e o então capitão dos soldados que perseguiam os criminosos, Alberto Dalla Chiesa, fez com que Corleone voltasse a olhar para o seu passado.
‘‘Existem sicilianos que não se inclinam diante da máfia’’, declarou emocionado um oficial deste grupo de soldados, ao terminar a projeção.
‘‘Que a máfia está presente em Corleone, não é nenhuma novidade. O que é novo é que seus opositores sejam a maioria’’, disse o otimista chefe da Comissão Antimáfia, Giuseppe Lumia, citando como prova as recentes manifestações organizadas em Corleone.
No dia 3 de setembro, a cidade lembrou o assassinato do general Alberto Dalla Chiesa, o homem que deteve os assassinos de Rizzoto e que foi assassinado em Palermo em 1982. ‘‘Uma multidão de pessoas assistiu à cerimônia’, afirmou Lumia.
Apesar da profusão de manifestações, os responsáveis pela luta antimáfia estão mais preocupados com a importância de combater financeiramente a organização criminal e aplicar a lei de confisco de bens. Em 1999, as autoridades confiscaram uma mansão pertencente a Totó Riina e a transformaram em escola.
Segundo um recente estudo das autoridades financeiras, o prazo médio entre a emissão de uma ordem de confisco e a expropriação efetiva por parte do estado é de 11 anos. Além disso, dos 250 bilhões de liras de bens imobiliários confiscados até hoje, somente 15% foram destinados a um fim público.
Finalmente, segundo reconhece o próprio Giuseppe Lumia, a credibilidade da luta contra a máfia depende da detenção de Bernardo Provenzano, corleonês considerado como chefe da Cosa Nostra desde a prisão de Riina. Provenzano, que sem dúvida se esconde na Sicília, está foragido há 30 anos.

A morte do dedo-duro

A morte do dedo-duro
Morre de câncer em Nova York o mafioso Tommaso Buscetta
Osmar Freitas Jr. - Nova York
AP

O siciliano Tommaso Buscetta, filho de um vidraceiro de Palermo, se mostrou difícil de quebrar. Bem que tentou: sobreviveu aos riscos anormais da profissão de “soldado da máfia”; saiu ileso da primeira grande guerra de gangues de Palermo em 1962; foi gerente de uma das primeiras grandes operações mafiosas de tráfico
de drogas no Brasil; passou por cadeias brasileiras, italianas e americanas; e transformou-se no primeiro mafioso a colaborar com a Justiça, passando à condição de inimigo número 1 da Cosa Nostra. Nem a ingestão de cicuta, numa tentativa de suicídio, conseguiu acabar com ele. Caçado em três continentes, pela polícia
ou por seus ex-parceiros de crime, Tommaso deu seu último suspiro no domingo 2 na ala de oncologia do Sloan Kettering Memorial Hospital, em Nova York. Tinha 71 anos e só perdeu sua última batalha para o câncer com quem lutou três anos.
Don Masino dizia que o Brasil havia sido o lugar onde ele passara seus dias mais felizes. A vida nos trópicos lhe fazia bem: quando em São Paulo (que ele achava muito parecida com Gênova), frequentava o antigo restaurante Patachou.Certa noite de 1972, ele enviou uma garrafa de champanhe para a mesa onde estava a fina flor da Tropicália: Caetano Veloso e Gal Costa. Os baianos não sabiam que o fã italiano era uma espécie de Don Corleone local.
Tommaso também pegou um bronze na paradisíaca Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. Lá ele mantinha
bem azeitada uma operação de contrabando de cocaína, usando o antigo aeroporto de terra batida à beira-mar e a distância de um tiro da casa do Capitão dos Portos. Ninguém, é claro, notava a frequência dos vôos noturnos na ilha. Seus escritórios locais eram o bar e restaurante Totinho e as corretas mesas do restaurante Siriúba. Nem todos os nativos, porém, tiveram encontros felizes e regados a champanhe. O dono da pousada Bordelão, por exemplo, se preparava para dar a volta ao mundo num veleiro que construía com as próprias mãos. Em 1972, ele foi encontrado morto debaixo desse barco. Esta seria a primeira vez que o nome Buscetta seria pronunciado incorreta e nervosamente pelos noticiários brasileiros.
A partir daí não demorou muito para que a Polícia Federal, comandada na época pelo então delegado Romeu Tuma, desmontasse os negócios tupiniquins de Don Masino. Ele foi preso e deportado para a Itália, onde começaria sua carreira mais fulgurante: a de testemunha-chave no processo movido pelo famoso juiz Giovanni Falcone contra a Cosa Nostra. O juiz, assassinado em 1994, costumava dizer que Tommaso fora seu maior trunfo na guerra contra a máfia.
A delação quebraria de forma espetacular a chamada omertà – o código de silêncio. Buscetta, inclusive, foi o primeiro a denunciar o envolvimento do ex-primeiro-ministro, Giulio Andreotti, com a máfia. O caso deu em pizza e o mafioso disse antes de morrer que se arrependeu de sua confissão. “Levarei a certeza de que errei na
previsão que fiz junto com o juiz Giovanni Falcone, a quem tiraram a vida. A máfia hoje desempenha um papel
maior do que tinha no passado. Porque a máfia se tornou um fato político”, disse.
Nos Estados Unidos, ele ajudou a desbaratar uma rede de traficantes de cocaína e heroína que funcionava em pizzarias de Nova York – a “Conexão Pizza”. E assim passou a ser então o homem mais odiado pela máfia.
Seus serviços às autoridades americanas lhe valeram a proteção do FBI. Mas o dedo-duro da “Mano Nera” nunca conseguiu retornar à Ilhabela, embora tivesse dois filhos nativos e fosse casado (em sistema de bigamia) com a cidadã brasileira Maria Cristina de Almeida Guimarães. Na verdade, gostava de casar-se: teve três esposas e sete herdeiros em três continentes.
Na aposentadoria, contentou-se com uma casinha em Nova Jersey. Um final, convenha-se, melhor do que aquele do dono do hotel Bordelão e outros que Buscetta mandou matar.
“Levarei a certeza de que errei na previsão que fiz com o juiz Falcone. A máfia hoje desempenha um papel maior do que no passado”

Playboy e sanguinário

ITÁLIA
Playboy e sanguinário
Aos 39 anos, o novo chefão da Máfia parece um profissional urbano bem-sucedido, mas é acusado de pelo menos 50 assassinatos
Matteo Messina Denaro é fanático por videogames, quebra-cabeças e histórias em quadrinhos. Também é um bon vivant. De hábitos refinados, prefere calças Versace, relógios Rolex e gravatas de seda. Há alguns anos, era possível vê-lo na direção de um Porsche vermelho na costa da Sicília, na Itália. Nas discotecas da moda, cercado de belas mulheres, pedia sempre champanhe Cristal. Aos 39 anos, Denaro é um tipo de homem que gosta de freqüentar restaurantes grã-finos. Desde 1993, contudo, está sumido. Condenado à prisão perpétua, acusado de pelo menos 50 assassinatos e apontado pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, como um dos dez maiores traficantes de droga do mundo, Denaro é, hoje, o mais poderoso chefe da Máfia em liberdade.
A polícia está no encalço do mafioso, mas é difícil prendê-lo. Quase não há fotos de Denaro – a mais recente, publicada na capa da revista italiana L’Espresso da semana passada, mostra um jovem de cabelo curto e óculos escuros. Denaro (palavra que, em italiano, significa dinheiro) usa a fortuna que amealhou no crime para se esconder. “Nojentamente rico”, como definiu o jornal inglês The Independent, o criminoso é, na aparência, o herdeiro de uma empresa de areia e cimento para a construção civil, em Mazara del Vallo, cidade siciliana. Filho de Francesco Messina Denaro, chefe da Máfia em Mazara até morrer, em 1998, Matteo ficou com muito mais que o negócio legítimo do pai e o restrito poder local do velho mafioso. Herdou o comando da maior e mais perigosa organização criminosa do planeta.
A ascensão de Denaro iniciou-se com a queda de um dos maiores chefões da Máfia de todos os tempos: Salvatore Totò Riina, apelidado de O Monstro. Preso em 1993, depois de denunciado por um ex-motorista, Riina comandou a Cosa Nostra (“coisa nossa”, em português) por 11 anos. A prisão do Monstro encheu de esperança os italianos, que viram ali um golpe mortal contra a Máfia. Riina havia levado seus comandados a um patamar assustador de violência e ousadia. O clima entre os mafiosos começou a mudar em 1984, quando Tommaso Buscetta foi preso no Brasil e resolveu entregar os companheiros. Cerca de 300 pessoas foram encarceradas. Mais importante que isso, no entanto, rompeu-se a omertà, o voto de silêncio que impera entre os membros da Cosa Nostra e não perdoa denúncias e confissões de crimes.
Estava, também, criada a figura dos pentiti, mafiosos arrependidos, que, em troca de penas mais leves, se dispuseram a contar o que sabiam às autoridades. Graças aos pentiti, muitos chefes foram presos e relações promíscuas entre criminosos e importantes autoridades vieram à luz. Até Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro da Itália pela Democracia Cristã, foi denunciado. Julgado como mandante do assassinato de um jornalista, foi absolvido, mas sua carreira política acabou.
Riina, sem desprezar o poder da corrupção, preferia métodos violentos para lidar com o Estado. Em 1992, dois atentados à bomba mataram os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, então os mais eficazes perseguidores da Máfia. A morte dos juízes causou enorme comoção no país. ä
O governo se viu obrigado a apresentar resultados na luta contra o crime organizado. Em janeiro do ano seguinte, Riina, o chefe dos chefes, como dizem os mafiosos, foi para a cadeia. Ele estava foragido havia 23 anos.
Quatro meses depois, três atentados à bomba abalaram a Itália. Uma explosão em Florença matou cinco pessoas e danificou várias obras do Uffizi, um dos mais importantes museus do mundo. Em Roma e Milão, outros dois carros-bomba fizeram mais cinco vítimas. As explosões foram interpretadas pela maioria dos italianos – otimistas com a prisão do Monstro – como o estertor da Máfia. Os últimos golpes de um inimigo moribundo. Era cedo para isso. Há inclusive a suspeita, partilhada por estudiosos do crime organizado, de que a própria prisão de Riina tenha sido arquitetada pela Máfia. A história tem contornos cinematográficos – por coincidência, Riina pertence ao clã dos Corleonesi, da cidade de Corleone, que inspirou os personagens das histórias de Mario Puzo, levadas ao cinema por Francis Ford Coppola. Bernardo Provenzano, o segundo homem na hierarquia da organização, teria preparado a armadilha que encerrou a carreira de Riina. Nesse contexto, os atentados em Florença, Milão e Roma representariam uma espécie de batismo de fogo – o marco inicial do reinado de um novo chefão.
Para planejar e executar as explosões, Provenzano convocou um jovem matador, articulado, atualizado em relação a tecnologia e cruel: Matteo Messina Denaro. Tanto Provenzano quanto Denaro são membros do clã Corleonesi. No início, ainda sob as ordens de Riina, Denaro era um “soldado” que Provenzano usava em ações violentas. O playboy gosta de atirar e de matar. Aprendeu a usar uma arma aos 14 anos. Aos 18, cometeu o primeiro homicídio. Ambicioso, tornou-se logo uma ameaça a Provenzano, também foragido. Velho e doente dos rins, o chefão evita se reunir com Denaro pessoalmente. Teme ser executado.
Na hierarquia da organização, Provenzano estaria um degrau acima de Denaro. “Se você comparar a Máfia a uma empresa, Provenzano foi promovido a vice-presidente e Denaro é o novo diretor-executivo”, analisa Giuseppe Lumia, chefe da comissão anti-Máfia do Parlamento italiano. Muito mais perto da frente de batalha, o comandante de polícia de Trapani, Giuseppe Linares, confirma. “Hoje, dentro da Máfia, todos temem Denaro e ninguém manda mais que ele.” Não é à toa que, atualmente, Trapani é o foco mais ativo da Máfia, dentro da Sicília. Lá fica a base de operações de Denaro.
Os tentáculos do grupo, no entanto, alcançam o restante da Europa e os Estados Unidos. Envolvem exploração de prostituição, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e principalmente o narcotráfico. Denaro é idolatrado por seus comandados, que o chamam pelo apelido de U Siccu (O Magro). A nova geração da Máfia, em grande parte ainda desconhecida da polícia italiana, prefere Denaro, urbano e moderno, a velhos como Provenzano, um camponês desconfiado e ignorante.
Como mais uma marca de suas diferenças em relação à velha geração, Denaro escolheu outro apelido. Siccu, de origem siciliana, foi trocado por Diabolik, personagem de uma história em quadrinhos na Itália. Denaro gaba-se do medo que infunde em Provenzano e outros chefes mafiosos. Costuma dizer que poderia fazer um cemitério só com as pessoas que ele mesmo matou. Extrai lucros enormes do crime, mas não despreza nem pequenas fraudes como a pensão por invalidez que recebeu por 12 anos do Estado italiano.
Para capturá-lo, a polícia grampeou até o túmulo do pai do mafioso, em Trapani. Os arapongas colocaram microfones na lápide para tentar flagrar o capo, valendo-se do hábito dos mafiosos foragidos de transmitir ordens e recados por meio de encontros em cemitérios e igrejas. O truque não deu certo, mas demonstra que vale tudo para tentar prender o comandante supremo da Máfia.
Tradição de ilegalidade.

Itália prende nº 2 da Máfia

A Tarde

A polícia italiana aplicou novo golpe na Máfia siciliana, ao prender ontem em Bagheria, perto de Palermo, o “chefão” Pietro Aglieri, considerado um dos sucessores do chefe supremo da Cosa Nostra, Toto Riina.
Pietro Aglieri, de 37 anos, foi preso durante uma reunião de chefes mafiosos na qual participavam os pistoleiros procurados Natale Gambino e Giuseppe La Mattina.
O prefeito de Palermo, Antonino Manganelli, encarregado da luta antimáfia, confirmou a prisão dos três mafiosos. “Isto confirma que o Estado está cumprindo com seu dever delutar contra o crime organizado. O aparato policial é idôneo”, disse.
Chefe da poderosa “família” Santa Maria di Gesú, Pietro Aglieri era considerado um dos sucessores do “chefão” supremo da Máfia, Toto Riina, preso em janeiro de 1993.
Aglieri era o criminoso mais procurado da Itália. Segundo os magistrados da luta antimáfia, ele é responsável pelos crimes mais atrozes cometidos pelo terrorismo mafioso, nos últimos dez anos.
Segundo a polícia, seu poder se consolidou em maio do ano passado, quando também caiu nas mãos da polícia o sanguinário “chefão” Giovanni Brusca.
Pietro Aglieri é chamado de “U Signurinu” (“O Grande Senhor”), devido a seu refinamento. Seu nome foi vinculado ao assassinato em 1992 do deputado democrata-cristão no Parlamento Europeu Salvo Lima e aos mortais atentados contra os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.
Foi condenado à revelia por um tribunal de primeira instância à prisão perpétua pelo assassinato de outro magistrado, o juiz Scopelliti, e a uma pena incompreensível de 12 anos de prisão pelos delitos de associação mafiosa e de tráfico de drogas.
Considerada “a mãe de todas as máfias”, a Cosa Nostra é a mais importante organização criminal da Itália. Segundo a polícia, a Máfia siciliana conta com cinco mil filiados, que têm martirizado a Sicília e que estendem suas redes ao narcotráfico, ao tráfico de armas e principalmente à “lavagem” de dinheiro.

Copacabana é testemunha da decadência do capo

02/07/06


Nos anos 30, a família mafiosa
Caruana comprava e vendia haxixe por toda Itália. Duas décadas depois escolheram Beppe,
como é conhecido entre os italianos - em Copacabana passou a ser chamado de Peppe - para expandir os ''negócios'' de cocaína a três nações americanas. Da cidade de
Siculiana, localizada na costa meridional da Sicília, Giuseppe foi aos Estados Unidos,
onde em Nova York fez uma aliança com a famiglia Gambino. Os acordos seguintes
foram em Montreal, e em Caracas. Após trazer a máfia para as
Américas, Giuseppe Caruana escolheu o Rio para descansar. E conseguiu. Foi morar de
frente para a praia, no edifício Maria José, Avenida Atlântica. Logo na entrada do
prédio, um brasão da família Raggio, de Gênova, norte da Itália. Os Raggio deixaram o país no século XIX durante a unificação italiana e foram fazer fortuna na Filadélfia,
no Leste americano. Diferentemente dos conterrâneos, Caruana veio ao Brasil administrar a
riqueza obtida com a expansão da Cosa Nostra, além de cuidar da educação dos
filhos.
Caminhadas - Em mais de 30 anos manteve uma vida tranqüila. Lucrou com a
compra e venda de imóveis em diferentes endereços de Copacabana: Avenida Atlântica,
Nossa Senhora de Copacabana, e ruas Barata Ribeiro e Francisco Otaviano. Caruana, apontado
pela Interpol e pela Justiça italiana como um dos chefes da máfia sempre teve uma rotina
sem sobressaltos: todas as manhãs descia ao calçadão para caminhar logo após receber a
visita de um massagista.
Com cerca de 1,70 de altura, Peppe cultivava a vaidade. Tentava
esconder os efeitos do tempo tingindo os cabelos de preto. Em 1985, trocou o primeiro
andar do prédio pela cobertura, no 12° andar. Para os vizinhos é apenas um ''velhinho
simpático''. ''Nunca soube com o que o senhor Giuseppe trabalhava, mas sempre foi um
ótimo vizinho'', diz uma moradora. ''Acho que ele é aposentado. Apesar de não falar
muito, sempre teve bom humor'', revela outro.
Essa alegria tem explicação. Segundo dados da Secretaria Nacional
Anti-drogas (Senad), Peppe movimentou fora do Brasil uma conta de US$ 2,5 milhões.
Os negócios imobiliários eram muitos. Giuseppe Caruana chegou a ter uma loja num
shopping, na Avenida Atlântica, onde hoje funciona o Hotel Sofitel. Em 1986, o velho
Caruana doou esse imóvel ao filho, um cardiologista respeitado da Zona Sul do Rio e que
não possui qualquer acusação na Justiça brasileira ou italiana. O susto aconteceu um
ano antes, quando foi traído, juntamente com toda a cúpula da Cosa Nostra.
Traição - A prisão de Tomaso Buscetta, no Brasil, tido dentro da
organização como Uome donore (homem de honra), caiu como uma bomba entre os
chefes da máfia. O criminoso quebrava uma das regras principais da organização: a Omertà,
o código de silêncio que os mafiosos se impõem. No primeiro encontro com os juízes
italianos, Buscetta se confundiu com uma foto antiga de Giuseppe e disse que o siciliano
havia morrido. Num segundo momento, quando já era protegido pela Justiça italiana,
revelou o poder do morador de Copacabana dentro da Cosa Nostra. Buscetta morreu em
janeiro de 2000 vítima de câncer. Apesar dessas revelações, nunca houve um pedido de
extradição.
''A solicitação para ele ser extraditado nunca
chegou. Ele foi incumbido pela máfia decriar pontos na Venezuela e Canadá. Se
estabeleceu por aqui e nada se apurou'', conta o juiz Walter Maierovitch, ex-secretário
nacional Anti-drogas e presidente do Instituto Giovanni Falconi, em São Paulo. A
condenação, em 98, por associação mafiosa - o primeiro caso na Justiça italiana por abrir filiais da máfia pelo mundo e lavar dinheiro - não atrapalhou a vida de Giuseppe.
Manteve a rotina, mas tomou alguns cuidados. O primeiro foi retirar o nome da
lista telefônica. Outra decisão foi desistir das viagens à Europa, o que facilitaria
sua prisão. No ano seguinte, a Agência Brasileira de Informações (Abin) começou a
seguir seus passos, não comprovando qualquer atividade criminosa de Peppe no
Brasil.
Especialização - A idade avançada afastou dos negócios o velho
Caruana. Segundo a Justiça italiana, a famiglia foi responsável pelo transporte
de 11 toneladas de cocaína, dentro de um contêiner repleto de doces, que saiu do Porto
de Santos e foi apreendido em Gênova, no início dos anos 90. Tanto a Justiça italiana
quanto a Polícia Federal brasileira não têm dúvidas de que, no século 20, os Caruana,
junto com a família Cuntrera, montaram uma joint venture com cartéis colombianos
e se especializaram em traficar coca para a Europa em navios ou aviões. Também cuidaram
da lavagem do dinheiro ganho por eles ou por outras organizações criminosas.
O descanso de Giuseppe no Rio pôs à frente dos negócios o sobrinho
Alfonso, de 53 anos, atualmente cumprindo pena de 18 anos de prisão na Itália. Os
principais homens da Cosa Nostra estão presos no Canadá e na Europa.
Meses após a condenação na Itália, ele sofreu um derrame que interrompeu
suas caminhadas. Passa os dias em casa na companhia da mulher, Carmela, de uma empregada e
uma enfermeira. O filho, Pasquale, vai visitá-lo diariamente. Como a saúde de Giuseppe
inspira cuidados, a filha Antonina veio ao Rio e está hospedada no apartamento dos
Caruana, mas evita sair de casa.
O velho
Caruana vive com uma sonda e dificilmente fala. A família afirma que Peppe nunca comentou com os filhos sua participação na máfia. Ao contrário dos parentes, na
Itália, deixou os herdeiros fora dos negócios. ''Nunca soube por que papai veio para
cá. Acho que o mundo estava ficando pequeno'', disse a filha numa conversa rápida semana
passada. A doença livrou Peppe da cadeia, mas lhe impôs uma prisão domiciliar.
(Jornal do Brasil)

Livro passa a limpo história de Berlusconi

[01/ABR/2006]

ROMA - Neste momento, o livro mais lido, vendido e discutido na Itália divulga os resultados de uma investigação bem documentada sobre as origens e os mistérios da fortuna de Silvio Berlusconi, o italiano mais rico da terra, a quem o Financial Times, de Londres, conferiu o título de ''aspirante a Napoleão''. Ocupa o primeiro lugar na lista dos best sellers: em menos de um mês, já vendeu 250 mil exemplares. Até o fim de abril, deve chegar aos 350 mil, segundo as previsões de seus editores (Riuniti, de Roma), que já agradeceram publicamente ao cômico Daniele Luttazzi, apresentador do programa de televisão Satyricon, maior responsável pela explosão das vendas do livro. Explosão que foi provocada pela entrevista concedida pelo jornalista Marco Travaglio, um dos autores do best seller, e concluída com um caloroso cumprimento do apresentador Luttazzi ao repórter que demonstrara ser muito corajoso ''num país de m....''
O livro chama-se Lodore dei soldi (O odor do dinheiro). Seus autores são o deputado Elio Veltri, membro da comissão parlamentar antimáfia, e o jornalista de La Repubblica, Marco Travaglio, que usaram como matéria-prima uma ''pesada documentação'' reunida por magistrados, funcionários do Banco Central (Bankitalia) e agentes da Divisão Anti-Máfia (Dia).
Império - Formada por inquéritos, relatórios e uma entrevista inédita do juiz-mártir Paolo Borselino, pouco antes de ser assassinado pela máfia siciliana, nunca transmitida pela RAI nem publicada pela imprensa, a documentação sobre os primeiros bilhões de liras ganhos e movimentados por Berlusconi não poderia ser mais confiável. É indispensável para quem quiser se informar sobre a história do império construído do nada pelo cavaliere Silvio Berlusconi, hoje formado por 34 holdings que representam um aglomerado de centenas de empresas de televisão, cinema, publicidade, esportes, seguros, financeiras, viagens e transportes aéreos e de editoria (de livros, jornais e revistas). Segundo a revista americana Forbes, Silvio Berlusconi é o homem mais rico da Itália e o 23° de todo o mundo, com um patrimônio pessoal estimado em U$$13 bilhões.
O documento revelado pelo livro de Veltri e Travaglio que maior impacto teve na opinião publica foi a entrevista que o ex-juiz siciliano Paolo Borselino, grande amigo e colaborador do procurador Giovanni Falcone na batalha contra a Cosa Nostra, concedeu a dois jornalistas franceses, dois meses antes de ser eliminado por um comando de mafiosos, à porta da casa de sua mãe. Nessa entrevista, julgada ''superada e pouco interessante'' pelos editores dos telejornais das três emissoras Rai, Borselino considera provável e lógica a possibilidade de as primeiras empresas mais ambiciosas de Berlusconi terem sido financiadas nos anos 70 por Vittorio Mangano, um ''grande'' do tráfico de droga realizado pelas famílias mafiosas de Palermo, condenado duas vezes à prisão perpétua, que de 1973 a 1976 viveu, com mulher e dois filhos, em Villa Arcore, mansão com 140 quartos perto de Milão, a mais usada das residências de Berlusconi e sua família.
Amigo - Respondendo aos juízes que na década de 90 pediram-lhe que explicasse os anos de convivência íntima que teve com um mafioso tão perigoso, Berlusconi disse ter conhecido Vittorio Mangano por intermédio de seu amigo siciliano, ex-colega de universidade e sócio, Marcello DellUtri, que lhe sugeriu a contratação de Mangano, como cavalariço, e pediu-lhe que o recebesse e tratasse como amigo.
Aos jornalistas franceses que lhe perguntaram se não lhe parecia estranho que dois empresários da importância de Berlusconi e DellUtri se ligassem a mafiosos como Mangano, Borselino respondeu: ''No início dos anos 70, a Cosa Nostra começou a se tornar uma empresa, que através de uma presença cada vez mais forte, praticamente monopolista no tráfico de drogas, passou a administrar uma enorme massa de capitais, que procurou exportar ou depositar no exterior. Daí se explica a cumplicidade entre elementos da Cosa Nostra e certos empresários que se ocupavam de movimento de capitais. Portanto, é normal que o dono de grandes somas de dinheiro procure os instrumentos para empregar esse dinheiro, seja lavando-o, seja fazendo-o render altos juros''.